22.4.18

TEA

Xícara vazia é como corpo sem alma,
Xícara sem chá, é como mente sem razão,
Como rio sem água,
Chuva sem gotas,
Flores sem pétalas,
Eu sem você.

Xícara cheia é como você de olhos brilhantes,
Xícara com chá, é como a felicidade que lhe desejo,
Como um beijo fraterno, um último ensejo,
O episódio final da temporada,
O sol em plena madrugada,
Você feliz e mais alguém.

Xícara pela metade não transborda,
Também não seca,
Mas molha os dedos.
Chá servido aos poucos,
Com o gosto de “somos amigos”,
Chá de cadeira, chá de pedra, chá de respeito,
Chá de vida e seus mistérios, chá que nunca foi feito,
Chá de cogumelos inundando o pirex na cozinha,
Chá de vó, de curandeiro, chá roubado da vizinha,
Mas chá.
Porque xícara vazia é como corpo sem alma.

By: Vinicius Osterer
Feito em 22 de abril de 2018.

11.4.18

Nebulosa Camomila

Deus estava sobre meus olhos,
Na beira do copo sobre a bancada do bar,
Olhando clandestino o vazio de fora e de dentro,
Em um cambalacho tortuoso e lento,
Nebulosa no Supremo Tribunal, expiando os pecados.

Era uma dama escura como a noite,
Bebendo em um copo raso vinho e orvalho,
Descendo ao chão como um otário,
Subindo sobre um cavalo sem assas.
Paris em chamas, meu peito em brasas,
Queria uma xícara de chá de maracujá.

Eram óculos de girassóis,
Com rodelas de limão quando tomei.
Óculos gigantes e caleidoscópicos,
Como o olhar de Deus para mim tão microscópico,
Enquanto limpo as minhas lágrimas douradas de camomila.
Chapado, embriagado, dilatado como minha pupila.
Nebulosa no céu, pego o ônibus espacial para o meu centro agora.

Olhos amendoados que não diziam ser inteiros,
Nebulosa Camomila sobre os meus travesseiros,
Perdi três corações em um só dia.
Sou vagabunda, sou desgraçada, uma vadia,
Bebendo chá enquanto o sono não vem.
Esperando que não me julguem sem provas,
Eram palavras saborosas, tão novas,
Não são nada, não pavimentam meu chão.
Mais uma xícara de amargor e decepção,
Depois disso a sobriedade é rebeldia.

Deus estava sobre minhas mãos,
Socando meu próprio estômago de punho fechado,
Sem amor pela existência, me sentindo culpado,
Porque é isso que dizem sobre mim na televisão.
Honestidade? Nem na minha versão,
Que tentava escrever um castelo de tijolos e não de cartas,
Meu império de utopismos cheio de erratas,
Sobre o erro que cometi ao lhe descrever.
O que estava fazendo? O que eu deveria saber?

Eles se beijaram apenas embriagados,
Embaixo de cobertas, com os olhos fechados.
Com uma língua de navalha,
No corpo a marca de um ferro.
No peito um daqueles segredos,
Que eu deixo em mistério,
Pois na beira do copo eu sou criança,
Que brinca de se equilibrar para não cair.
Se pôr tudo para fora eu sei que vou sorrir,
Mas vou vomitar algo que não é abstrato,
Olhando fixo para meu pé sem sapato,
O dedão esquerdo está roxo e gelado.

Eu não reflito, sou vampiro
Mas este é o meu reflexo.
Tende piedade, do desespero de Vinicius,
Os versos veem, sem acento circunflexo.
Nebulosa Camomila.
Encha um copo, por favor.
Preciso esquecer da menino menina,
Que foi embora com o meu amor.

By: Vinicius Osterer
Feito em 09 e 11 de Abril de 2018.

5.4.18

SALADA de ESCORPIÃO

(L)
(E)
(I)
(A)

Tenho um escorpião engasgado na garganta,
Desde a última vez que comi uma salada,
Tomei mais um gole da minha coca que era fanta,
E roguei para Júpiter quebrar o ciclo de nada.
Despejei com um “clak” sobre meu teclado mental,
Como um daqueles vômitos que joguei no banheiro.
Um escorpião, que às vezes tão baixo, faz mal.
Confunde por polissemia o que não deve ser grosseiro.

Amor é love e tão cute. Amor é pleno e não ostentação.
Na minha casa tem uma lua, um sol, sem explicação.
Daqui eu posso olhar o horizonte distante dos meus olhos.
Enegreci os meus olhos com sombra. Eles estavam chegando.
Regando com palavras, esperando que estivessem se amando,
Sobre a lua, sobre o sol, que também tem aqui em casa.
Outro peito, outra vida, outra brasa.
Na esquina esquerda do golpe militar em pleno século 2018.

Ajeitei meu cabelo, passei raiva no rosto,
Me bati deixando um hematoma roxo,
Enquanto acendia um cigarro musical, descendo até o chão.

O ventre que estava dolorido pelos exercícios e flexão.

Gengiva sangrava como uma menarca tardia,
Um grito enérgico que em mim não cabia,
Inteligente isso, você não acha?
Leia a primeira letra que me despedaça,
Hoje foi enterrado pela manhã o amor que eu tinha,
Era um amor gelado e solitário.
Rogava para algum plano espiritual,
Mendigando para que entendesse a maneira de ler.
Estava escrito na primeira letra de cada verso.

Engasguei com um escorpião,
Larguei umas palavras aqui e ali,
Em cima da casa meu gato “Fé” dormia.

É a roda do movimento! Tempero completo nos tomates.

O discurso de ódio é para os covardes.

ASSIM
MAIS LONGE
OLHOS QUE SE FECHAM
ROGAI POR NÓS.

Pepinos, alfaces, uma porção de batata,
Engraxados com alho e ódio, numa melodia ingrata,
Redonda como a roda do movimento cármico.
Sexo simbólico e fálico.
Ostentação empírica, de fato.
No punhado de incenso que acendi no quarto.
Inteligente isso, você não acha?
Farinha de trigo para evitar uma desgraça.
Imaginei uma forma simbólica,
Cunhando uma versão melancólica,
A lá Lana, Nirvana e conspiração política.
Deitado com um escorpião engasgado,
Onde nem a lua e nem o sol são iguais e explicáveis.

By: Vinicius Osterer
Feito em 05 de Abril de 2018.