23.4.16

Tagarela

Existe espaço para a minha falta de espaço?
Eu não sei. Quem sabe seja espaçoso só não me encaixo,
Ou por não fazer questão de me encaixar,
Ou por querer estar em silêncio,
Não vejo motivo para não estar.
Não gosto de me socializar, conversar ou de ver as pessoas,
Eu sou um sujeito de pouca palavras, pouco de mim restou.
Eu devo ter algum problema... não sou um bicho do mato.
Eu tenho assunto para conversar, tenho opinião formada.
Às vezes isso fica complicado, não é que não goste de certas coisas,
Mas eu não nasci para morrer enterrado dentro da minha classe social,
E eu vejo problemas em todas as pessoas,
Não em um grupo específico ou em alguém.
Aí é que fica tudo um pouco mais complicado.
Fica tudo mais difícil para lidar.
As coisas não batem, não fecham os ciclos e os pontos das frases.
Nem sei mais sobre o que eu estava falando.
Eu me sinto às vezes um pouco menos.
Então acho que o problema sou eu.
Sim. O problema sou eu! Creio que seja isso.
E desejo hoje no aniversário da minha sobrinha,
Que ela seja bem diferente de mim!
Diferente em todos os sentidos! Você já é bem mais inteligente!
Mas é tão estranho, eu gosto de ser uma ilha.
É tão bom não querer falar, mas não estou triste, estou feliz!
Tanto é que estou aqui conversando comigo mesmo como um louco,
Enquanto todos os outros conversam ao meu redor.
As pessoas precisam tanto assim se comunicar?
Hoje resolvi ser incomunicável!
Mas, ainda vou gastar algumas palavras com meus parentes hoje.
Falando sobre as mesmas coisas provavelmente,
Mas não os culpo! Não dou abertura para falar sobre outras coisas.
Acho enfim, que o problema sempre fui eu. Sim.
Eu sou um homem bem problemático!
Fazer o quê? Sou problemático mesmo!
Quem é que não é?
Quero poupar as minhas palavras. Assim ninguém me conhece.
Isso me parece bom. Me parece certo e bem justo.
E poucos vão ler isso mesmo. As pessoas não leem aqui no Brasil.
Ainda bem! Ou não! Continuarei sendo visto assim:
“O garoto quieto, depressivo e triste”.
Mas eu tenho tanto assunto para conversar.
Minha mente é bem tagarela!
E não estou nem um pouco insatisfeito com a minha vida, hoje.
Bom, acho que chega. Já tagarelei de mais sozinho.
Logo irão notar que eu existo. E isso é perder o domínio de minha ilha!

By: Vinicius de Góis
Feito em 17 de Abril de 2016.

20.4.16

Espelhos Quebrados

Eu não sei. Acho que já morri tantas vezes nesta vida,
E já deixei tantas versões de mim mesmo para trás,
Ontem tive um pesadelo, com a morte envolvida,
Acordei culpado, com uma questão que me tirava a paz.
E se nós cometemos o erro de dar a morte à outra pessoa,
Se somos egoístas ao ponto de enxergar apenas o que queremos,
E deixamos a existência abandonar o próximo à toa,
Sem a ajuda necessária que devemos dar e não demos?
Não sei mais quantos sonhos eu tive ontem de madrugada.
Não sei mais quantos sonhos eu ainda vou perder.
Não sei quantas vezes me sentirei como um nada,
Ou quantas vezes ainda vou mudar e vou crescer.
Tantos cacos de espelhos que já miraram a minha imagem,
Alguns semblantes bons, fortes e outros confiantes e estranhos.
Quem sabe roubaram a minha alma por uma passagem,
Se apoderaram de mim como em outros bons sonhos.
Eu vou pisando entre os vidros, por que eu sou um espiral,
A alma é eterna! Isso sempre fez sentido, estou jogando contra o mal.
Eu jogo com peças pretas sendo bonzinho,
Lutarei contra o rei branco no jogo de xadrez,
E não me importo se for uma peça e ficar sozinho,
Eu calculo os meus movimentos quando é a minha vez.
Acendo os candelabros do meu juízo. Aprendo a viver como jogador.
As coisas não precisam fazer sentido, precisam serem feitas com amor.
E se o segundo sol de Cássia Eller chegar,
Estarei disposto a não olhar para o céu que será claro.
Alguma estrela ainda há de brilhar,
Quando eu estiver denso, fumando um cigarro.
Todos os dias são pintados os espelhos, mais velhos do meu rosto,
E a minha alma não consegue ceder à velhas tentações.
Eu agradeço à Deus e rezo com muito gosto,
Para tentar vencer à roda das encarnações.
Queria ser massa escura. Queria ser antimatéria.
Queria não ter forma, não ter existência, não ter uma figura de mim.
Queria não ser uma imagem tão séria,
E poder refazê-la com muito zelo até o meu fim.
Sempre sobram vestígios do que eu já fui anteriormente,
Sobram fios de outras cores de cabelos já pintados.
Hoje eu sei que o passado é um caco dentro da mente,
De outros alter egos que já foram usados.
Tem vezes que a imagem assume a minha forma,
E não entendo mais o que é físico e o que é espiritual.
Mas já me alertaram para seguir uma única norma,
“Jogar com as peças pretas para superar o adversário do mal”.
No fundo nunca quis viver ou fazer parte da existência,
Mas isto é uma outra conversa, que eu já tive sobre a decadência.

By: Vinicius de Góis
Feito em 14 de Abril de 2016.

16.4.16

A Festa de Malisca

A tempestade do horizonte estava chegando,
Eu a chamei de Malisca, logo o mundo sentiria,
Aos poucos a temperatura acabou abaixando,
E os ventos começariam a destruir o que previa.
Os raios cortaram o céu escuro da noite de Abril,
Já não era mais quaresma e o Diabo estava trancado,
Veio água e mais água como nunca se viu,
A chuva foi tamanha que acabei todo encharcado,
Ajuntei as minhas folhas, corri para dentro, fechei as portas,
Queimei ramo bento e cobri os espelhos das paredes,
Cruzei minhas mentiras e fechei os olhos dando as costas,
Não se via mais formas apenas as conexões e redes.
Malisca esposa de Molusco e qualquer coisa marinha,
Me deixou de feição fechada, velado e solitário,
Destruiu com a cidade planejada dos meus sonhos e adivinha:
Arrasou com a minha vida, e colocou tudo ao contrário.
E rimar não é necessário, não tecerei nenhum comentário.
Não existe mais vocabulário, Malisca fez aniversário,
Sim foi isso que eu ouvi quando foram dez horas exatas,
Cantavam alta as nuvens: “Parabéns para você!”,
O rio enchia, levava as casas das pessoas já fartas,
Daquele barulho infernal. Daquele grande fuzuê.
As coisas ficaram estranhas, com a magia negra modesta,
E os raios dissiparam da cidade toda a luz elétrica acessa,
Para jogar deveriam quebrar mais uma regra da festa,
Deveriam sucumbir aos seus instintos com mais frieza,
A reza era pouca, essa era uma fraqueza,
E a palavra estava solta, não se tratava da pureza,
Era um parabéns com sons africanos e gestos comedidos,
Uma festa particular para Malisca e seus admiradores,
Para curar as memórias dos corações partidos,
E repaginar as histórias já povoadas com muitas cores.
A chuva de lágrimas estava passando,
Apenas tinham raios de cólicas que atormentavam a escuridão,
De repente um raio acabou iluminando,
O vazio e o silêncio que se fez por antecipação.
Já sabia-se de Malisca no noticiário da manhã,
Já ouvia-se sobre ela na previsão do meio-dia.
Mas a mente que estava vivenciando uma filosofia vã,
Não conseguia entender uma informação tão vazia.
Acabou a bateria do celular, eu estava incomunicável.
As lojas não vendiam computadores e nem canetas.
Os papéis não se encheriam com um sorriso agradável,
Os textos não estariam prontos e arquivados nas gavetas.
Tudo estava errado. Tudo estava estranho.
O que não estava molhado acabou tomando um banho.
Dentro de uma torrente, que parecia um rebanho,
Quebrando em mim uma corrente, deixando meu cabelo castanho.
Se ver Malisca diga que não pude comparecer à festa promovida,
Estava dormindo e contando algumas falsidades,
Se ela desabar em água em uma quantidade de chuva comovida,
Diga que nunca me dei bem com as tempestades.
Beijo Malisca, que chora na minha janela,
Se as paredes aguentarem eu não cederei facilmente.
A casa e a tempestade me trancafiaram em uma cela,
E acredito que aguentarei como um homem bravamente,
E tudo isso por que eu vi a tempestade surgir no horizonte,
Naquele mesmo horizonte onde o sol é devorado todo dia.

By: Vinicius de Góis
Feito em 13 de Abril de 2016.

9.4.16

Decadência

Desculpe-me Zuenir Ventura. Estava lendo seu livro e pensando.
Como é fácil para alguém como você que tem o reconhecimento que tem,
Esplainar sobre os seus luxos, seus tratamentos e dilemas clínicos.
Não sei se seu livro sairia se você fosse um paciente do SUS,
Um sistema em decadência que acredita-se ser o melhor do mundo.
Parabéns! Você é um ótimo escritor. Me despertou inveja.
E este mal secreto não é nada mais secreto.
E estou na minha própria ruína literária,
Se isso pode ser considerado como alguma coisa que tenha valor.
Não sei se devo lhe chamar como senhor,
(É um venerado membro da nossa academia brasileira de letras),
Mas por ler o que você escreve acho que somos um pouco conhecidos,
Nossas ficções se conhecem e se conectam neste exato momento.
Bom. Aceito bem determinadas coisas. E por um instante quis ser você.
Poder escrever, viajar e ter um tratamento médico adequado.
Não depender de uma vaga remanescente ou de um soro para evitar dor,
Isso dentro da perspectiva de um filho de um pai da classe média baixa,
Sem carteira assinada, viúvo e detentor financeiro da casa.
Um grande homem que cursou o supletivo depois de velho,
Para acabar os seus estudos do ensino médio,
E dar um bom exemplo, a este que escreve, para fazer faculdade,
Cursar como aluno especial de mestrado sua paixão,
E escrever estas porcarias que não tem mais o mesmo valor que antes,
Naquele belo período dos “Anos Dourados”, que valem boas lembranças.
“O que dói não é a morte, mas o padecimento” – página 87 de seu livro.
É isso que me dói. É isso que me dói e não a morte.
Abrir mão das coisas que eu conquistei para viver.
Por que nada mais é como era antes. Mesmo com minhas crises.
E agora eu sou um ser humano decadente, tentando ajuntar os pedaços,
Ou algumas coisas boas que acho que já povoaram a minha vida,
Lembranças, pessoas e lugares. Comidas que comia e não como mais.
Estou tentando sobreviver a mim mesmo, não á uma doença,
E isso está complicado. Eu sou pior do que um câncer.
Eu vou desistir da minha vida. Eu cobiço a alegria alheia.
Não imaginava que isso acabaria nesta depressiva decadência,
Eu trancado em um quarto abafado, com dores e fome.
E não imaginava que seria assim que as coisas fossem acabar.
Desta forma que nem nas minhas melhores ideias eu tinha imaginado.
Ontem eu recebi uma mensagem que dizia: “te admiro muito”.
Mas eu não admiro mais nada em mim. Não sou mais nada.
Não sou mais garoto, não sou mais amigo, não sou mais exemplar,
Não sou egocêntrico, não sou amado e nem sou mais misterioso.
Voltei a ir à Igreja, mas descordo das mesmas coisas, isso não nego.
Voltei mais uma vez a ir ao hospital, tomar soro, remédio na veia.
E remédios são o que não me faltam. O que me faltam são recursos.
Este era para o ser “o ano”. Apenas está sendo “a decadência!”.
E queria poder parar de ler o seu livro na metade,
Por que tenho inveja de alguém que é tão criativo na dor,
Assim como fiz com Clarice e a sua Maça no Escuro.
Quem sabe Ciranda de Pedra seja melhor que seu livro,
E não me faça desejar não ter vivido na última cirurgia que fiz.
Eu tenho inveja sim. Mas de alguém como você.
Do resto tenho dó, às vezes pena. E estou na minha ruína literária.

By: Vinicius de Góis
Feito em 08 de Abril de 2016.

8.4.16

Agora Eu Sei

Eu não sabia o que eu sabia, mas agora eu sei,
Alguma coisa aconteceu e agora eu sei,
Eu os classifico como “farinha do mesmo saco”.
Mais um passo e mais gente que será cortada.
Eu decidi parar de ser besta e acabar com tudo,
Com todas as situações e as coisas que não me agradam.
Estou em um processo de seleção de conhecidos e lá no fundo,
Quase todos me esqueceram ou simplesmente me abandonaram.
Ou por que eu não posso sair, por que não tenho mais nada,
Por que não consigo elogiar e bajular para oferecer a paz procurada.
São muitas circunstâncias e coisas erradas ao meu redor,
São muitas energias ruins sobre mim e a minha vida,
E eu não sou ninguém importante, não faço nada demais,
Apenas vivo a minha vida e deixo o que não presta para trás.
Eu faço o que eu amo e o que eu quero, isso não é nenhum segredo,
E não sei por que as pessoas andam com tanto medo,
De se arriscar e de deixar que tudo dê errado,
De não agradar ou perder tudo e ganhar um fardo.
Eu não sou invejável, eu sou um ser humano normal,
E não consigo compreender por que especulam sobre minha vida,
Por que precisam frisar que gostam de mim e me admiram,
Qual é o medo? Isso é de coração?
Você no fundo não quer me ver de uma forma banal?
Você não quer que eu seja bem menos do que a realidade da razão?
Não quer que eu esteja fadado ao fracasso total?
E se for verdade, eu lhe desejo em dobro. De coração.
E se for mentira, lhe desejo o dobro. Também de coração.
Só posso lhe desejar de volta aquilo que você me deseja.
Eu gosto de dar motivos para as pessoas amargarem a boca,
Gosto quando não conseguem adocicar as palavras mesmo querendo,
E eu aprendi a não ser mais nenhum trouxa,
E agora eu sei com quem eu estou lidando e o que está acontecendo.
Acabou o reinado do grande porco gordo e cor de rosa,
Acabou o tempo das tantas cobranças e dos desejos imprestáveis.
Eu não sabia o que eu sabia, mas agora eu sei.
Eu peço perdão por que eu em algum momento também errei.
Mas agora, posso respirar bem mais tranquilamente,
O mundo é maior do que a energia ruim que emana de você.
Eu posso acordar dentro da minha vida e entender,
A alma é infinita, a alma é eterna.
Agora eu sei que vocês são o passado.
Eu não sabia, mas agora eu sei e isto está acabado.

By: Vinicius de Góis
Feito em 08 de Abril de 2016.

6.4.16

Desorganizado

Se você soubesse o caos que está a minha vida,
Minhas roupas estão todas desorganizadas,
Jogadas de um modo aleatório no chão do quarto,
Amassadas, sujas e batidas. Mas o que eu fico fazendo?
Por que eu deixo as coisas neste estado?
Estou com contas para pagar, dívidas e um mundo desabando,
Você pode ver que eu não estou mais nem rimando,
Por que isso não é mais sobre a arte e sim sobre a realidade,
A minha vida real, aquilo que eu vivo de verdade,
Sem sentir ou sem imaginar de fato como seria.
Deveria estar mais animado, comecei novamente a estudar,
Pintei meu cabelo de castanho, estou em paz comigo mesmo,
Mas por que tudo está tão desorganizado?
Não consigo organizar nada com cólicas,
E não consigo mais ser o garoto dramático que chora,
Que implora de joelhos diante de Cristo para me levar embora,
Tirar de mim esta dor maldita que faz com que o tempo não passe,
Que as coisas não aconteçam, que a vida não vá para frente.
De todas as coisas do mundo eu queria poder estar bem,
Ou poder comer qualquer coisa sem medo de sofrer,
Ou poder sentir novamente satisfação pela vida,
Sem parecer o homem amargurado e vítima do mundo.
Na verdade este papel nem me cai muito bem,
E isso me deixa irritado, por que eu não quero estar assim,
Não quero ser doente, não quero que rezem por mim,
Não quero que tenham piedade de mim,
Eu sou muito mais do que um pobre homem,
Eu sou feito de ferro, eu sou o meu humor negro,
Eu sou isso tudo, com muito custo e muitas lágrimas já passadas.
Eu queria que pedissem outra coisa que não fosse:
“Você está bem?”, “Você está melhor?”.
E por que eu não estaria? Eu não quero mais drama e mais drama.
Eu quero apenas parar de ter dor. Essas dores que param o tempo.
As dores que me deixam em outra dimensão,
Que me fazem renegar todos os sonhos para pensar na morte,
Pensar em coisas deste tipo e coisas piores e pesadas.
Ninguém quer ler sobre dramas. A vida de ninguém é perfeita.
E eu não posso me contrariar e ser louco,
Uma hora escrever que tudo vale a pena e na outra dizer o oposto.
Mas é exatamente isso que estou passando.
Uma vida que me dá e tira tudo em menos de 24 horas.
Me dá ideia e mostra a realidade, me dá saúde e me dá dor,
Me dá alegria e depois me mostra o seu terror,
O terror dos dias que não mudam, das roupas que se ajuntam,
Da vontade de morrer que vem e fica, vem e fica, e não vai.
Nada vai. Só vem e fica. E isso é muito ruim para alguém como eu.
Não quero piedade, nem drama, nem nada do gênero,
Mas acho que as coisas estão chegando á um limite estranho.
Não quero abrir mão de uma coisa para fazer cirurgia.
E não vou aguentar por mais meses esta rotina semanal do inferno.
Quem sabe seja a minha hora de ouvir belas palavras,
De ler belas palavras. Por que está tudo desorganizado aqui dentro.
Está tudo desorganizado e não consigo mais escrever nada.
Não consigo mais nem ser quem eu sou.
Nem um nome qualquer, nem o meu de batismo e de certidão.
Eu acho que isso é a vida imperfeita de alguém em depressão.

By: Vinicius de Góis
Feito em 06 de Abril de 2016.

5.4.16

Os Desacorçoados

Nós já temos as rosas vermelhas para o enterro.
Já criamos os caixões onde descansarão os nossos sonhos.
Por que o mundo acabou para todos nós, os desacorçoados,
Não existem opções para um paquiderme imprestável e doente.
Este mundo não é onde nós nos encaixamos,
Não há espaço para eventuais loucuras e deformidades,
O pouco de paixão que nos deixa em paz com nós mesmos,
E beira a obsessão de uma fantasia que sempre nos é negada.
O que você diz não tem graça, o que eu falo não tem sentido,
E as minhas razões são tão pequenas diante da grandeza do mundo.
Eu não sou amargo e nem tenho nenhum coração partido,
Só estou cada vez mais para baixo em um poço que não tem fundo.
Não é por que nós somos tristes que não amamos a nós mesmos,
Um pouco de amor próprio é o tempero de nossa miséria,
Se somos pequenos e a vida não faz mais nenhum sentido,
Esperamos a hora para amarrar uma pedra ao pescoço e se jogar no escuro.
Se jogar sobre um abismo sem fim. Essa é a nossa natureza.
Por trás de cada olhar e descontentamento existe um ser humano forte,
Um positivista que não acredita que as coisas possam piorar,
Fazendo a regra ao contrário do idiota de Murphy,
Alguém mais desacorçoado do que o bando inteiro dos desacorçoados.
E nem mais rimar é bom. Isso não faz mais nenhum sentido,
E não sou obrigado a dar palavras prontas e fáceis de se digerir.
Eu não quero mais viver e a morte é tão certa, mas não vem,
Só esse sentimento que vai e vai e me deixa tonto,
Dentro de um turbilhão de coisas que não fazem mais nenhum bem.
Cansei dos meus cabelos, das cores, dos livros e das pessoas,
Dos meus sonhos, da arquitetura, da morte e da arte.
Cansei de mim mesmo, cansei de estar errado ou de estar certo,
Cansei de estar cansado, estou desacorçoado, vivendo no tédio.
Cansei de mentir ou de dizer a verdade e tomar remédios,
Cansei de ter sentimentos, de vomitar de madrugada e ter justificativas,
Não consigo mais me iludir e colocar luz nas minhas prerrogativas.
Cansei de reclamar dos mesmos problemas e de viver a mesma rotina,
De fazer o almoço, de ler livros, de lavar a louça e arrumar o quarto,
De ser imprestável e não conseguir honrar as minhas dívidas e promessas.
Não quero ser o amigo ausente, a música que não muda,
Ou ser o mesmo Pokémon que não evolui.
Cansei de me enterrar toda vez que vejo as mesmas rosas vermelhas,
Ouvir os mesmos nomes e dramas e sentir as mesmas dores e acessos.
E essa pior vontade de me trancar no vazio e no escuro e beber veneno?
É pedir de mais que tudo isso e você peguem fogo?
É pedir muito? Por que até isso não vale mais à pena.
Por que o mundo acabou para todos nós, os desacorçoados,
Por que o mundo acabou para todos nós, os desacorçoados,
E nós enterremos todos nossos sonhos nesta porcaria de vida.
Chega! Cansei!

By: Vinicius de Góis
Feito em 03 de Abril de 2015.