24.11.16

Homem, 23 Anos

Homem 23 eu lhe matei. Lhe guardei na floresta da memória.
Você foi para mim o melhor dia de glória,
Não precisei acreditar que isso fosse verdade.
Homem 23 eu também sou um garoto,
Que deita na cama com o fone no ouvido e sonha.
Que olha para o teto e imagina o futuro distante,
A vida dentro de um desejo colorido e brilhante,
Que aparece com os meus olhos fechados.
E eu também sou a criança sem a carga de pecados,
O menino inventivo, o menino loiro e solitário,
Que tem no pescoço o seu escapulário,
E fica pulando de piso em piso, não pisando nos escuros,
Correndo e pulando em todos os muros,
Deitado na grama contando estrelas.
Acenda uma vela para seu anjo da guarda,
Esqueça um pouco os problemas, esvazie a cabeça.
Você não precisa mais ter razão de nada,
Você precisa de paz antes que enlouqueça,
Coisa da sua cabeça! É coisa da sua cabeça!
Homem. Eu sou um homem.
E sou a consequência daqueles meus atos.
Enquanto as pessoas no mundo dormem,
Eu faço minha janta e lavo os meus pratos.
Isso nem é poesia, é mais um dos meus relatos.
Homem 23 eu lhe matei.

Espero que não abandone meu espaço.
Estou dando um tempo para colocar as coisas no lugar.
Me entregar é complicado, está faltando um pedaço,
É difícil para mim ter que me reinventar.
Floresta mental da memória.

Preciso pular nos pisos claros,
Sonhar acordado com espinha de novo no rosto.
Não quero mais a fumaça dos cigarros,
E aquela cerveja que para mim não tem gosto.
Vou dar algum sentido para a minha existência,
Homem 23, um pouco mais de paciência,
O mundo ainda nunca parou de girar.

Preciso parar de comer porcaria,
E voltar a tomar meu remédio para depressão e ansiedade.
Não preciso trocar a noite pelo dia,
E nem mesmo beber todo dia e só fazer o que me dar vontade.
Tenho que dar um tempo e me desligar,
Olhar o pôr do sol sem me propor à pensar,
Sobre mim, sobre você, sobre o mundo, sobre tudo.

Duas e vinte da manhã e eu estou nessa.
Com a luz da cozinha apagada, meu gato do lado.
Com a vela queimando sem pressa,
Deixando o meu caderno mais iluminado.
Te amei. Eu tenho palavras que nem lembro que escrevi.
São anos e mais anos em que eu sempre sofri,
E preciso dar um tempo. Preciso não pensar em nada,
Ser bem menos a pessoa que parece tão inspirada,
E só sente no peito um punhado tão grande de coisas.

Floresta mental da memória.
Homem 23 você mudou a minha vida.
Não desista tão cedo assim de mim.
Espere... Me dê uma segunda chance,
Respirar um novo ar de relance,
Irá clarear um pouco mais as coisas.
Não quero que seja mais sobre mim.
Nem sobre você.
Nem sobre o mundo.
Nem sobre nada.
Espere...
É difícil para mim ter que me reinventar.
Não me abandone.

By: Vinicius Osterer
Feito em 23 de novembro de 2016.

22.11.16

Crime Perfeito

Me deixe em branco. O futuro é agora.
Olhe para cima, alguém por você chora,
São lágrimas pesadas e prateadas, gotas de chuva,
Pastilhas de menta com sabor adocicado de uva.
Me deixe em branco. Foto de perfil sem identificação,
Um garoto vinte e três perdido e sem inspiração.
Cadê?
Para onde foi?
Eu não sei. Não tem como saber.
O mundo me apunhalou pelas costas.
Estou sangrando por dentro do meu peito.
Está tudo pesado neste exato momento.
Cadê? Cadê? Eu não sei. Eu não sei.
Eu tentei não chorar, mas eu não suportei.
Me deixa em branco.

Eu preciso de férias do Vinicius.
Eu não quero mais isso para mim.
Parece arriscado não deixar indícios,
Mas este crime aconteceu até o fim.
Cadê?
Foi embora. O futuro é agora.
Eu não sei. Não, nem tentei saber.
Me deixa borrado para desaparecer.
Me apague com uma borracha,
Com um corretivo, me amassa e me joga no lixo.
Me deixa leve, mas não seja o meu vício,
Eu esquartejei a minha certeza.
Cadê a minha firmeza?
Eu não sei.

Me deixa transparecer um pouco mais de verdade,
Sair com a cabeça erguida para o centro da cidade,
Evacuar as fronteiras dos olhares de maldade,
Poder ser um pouco mais leve, menos denso, mais ferro.
Para onde foi tudo aquilo que eu quero?
Eu não sei. Eu não sei. Eu não sei...
Não diga que eu não fiz, não diga que não tentei...
Cadê?
Cadê a rima?
Cadê?
Me deixa aqui onde posso ser feliz.
Onde posso viver.
Me deixa aqui sem explicação,
Nessas frases sem ponto, sem ênfases e travessão.
Sem ponto, sem vírgula, sem negação,
Sem a porcaria da palavra aceitação.
Cadê?
Eu não sei.
Por que eu deveria saber?
Me deixa borrado para desaparecer.

Abre os olhos e respira,
Abre os olhos e não pira.
Essa dor já vai passar.
Olhe só, está passando...
Limpe os olhos para sonhar,
As coisas um dia acabando chegando.
Mas cadê?
Me deixa em branco!
Não faz sentido me preencher com estas palavras – diz a folha.

By: Vinicius Osterer
Feito em 18 de novembro de 2016.

21.11.16

Olhos Nos Olhos

Existe uma barreira entre a sua verdade e a minha.
Eu não posso mandar em você ou na sua opinião.
Se eu fugir e cruzar a fronteira com o resquício do dia,
Eu estarei mais alto do que a sua certeza de ter razão.
E se você tiver razão pouco me importa,
Eu ouvi o que poucos ainda olham nos olhos e falam,
As pessoas praticam uma linguagem morta,
E aos poucos no silêncio dos gestos só se atrapalham.
Senhor me dê sua mão, isso não é coisa que se faça,
A vida não é justa é uma madrasta,
Mas se erga, o senhor não faz por mal beber.
O que é meu coração partido?
O que é a minha falta de decisão?
Por que eu não ajudei um homem, caído bêbado no chão?
“Você é uma pessoa boa. Muito obrigado!”
Me disse isso desta forma, e com os olhos molhados.
Eu não me importo mais com a sua opinião.
Eu abracei aquele senhor que estava no chão.
Ele acalantou um pouco a dor patética e fútil da minha existência.
O ser humano é uma raça em decomposição na sua decadência,
E eu sou mais comoção e brutalidade.
Ser humano cadê seu senso de humanidade?
Linguagem morta. Linguagem morta.

Eu não sou de rezar. Nem contra a religião.
Mas o que acontece com o homem sem dinheiro do chão?
Eu não sou apolítico. Nem tenho um partido político de preferência.
Mas o que acontece com o homem caído quase em demência?
Linguagem morta. Eu estava bebendo e tinha para onde voltar.
Não precisava beber para achar um lugar para deitar.
Isso não tira o seu sono à noite?

Nos seus olhos de humano, eu deixei de ser mesquinho,
Parei de pensar em mim por um simples minutinho,
E deixei de escrever a minha linguagem morta.
E se você tiver razão pouco me importa,
Eu ouvi o que poucos ainda olham nos olhos e falam...
“Você é uma pessoa boa. Você é uma pessoa boa.”

By: Vinicius Osterer
Feito em 15 de Novembro de 2016.

18.11.16

Agradecido

Eu não quero ser grande e nem pequeno.
Eu apenas quero ser um pouco mais eu.
Não quero mais ser póstumo, vou vivendo,
Não sou a biografia de alguém que morreu.
Quando vai acabar este constante ciclo de fases?

Deitado no chão do banheiro, com o chuveiro ligado,
Eu viro a poesia universal, o refrão que nasceu,
Com a cabeça cheia, olhos vermelhos e corpo molhado,
Não sou a biografia de alguém que morreu.
Eu preciso me poupar para os dias piores?

Eu tenho sede e quero água, tenho fome quero alimento,
Mas o que eu quero preencher aqui dentro?
Essa coisa toda que sempre não é assim tão pouca!

Andando pelas ruas da cidade, eu não posso ser o mesmo,
Os céus passam, a água passa por baixo da ponte.
Eu não sou único, mas sou diferente e não mais prevejo,
O quanto muda o contorno do meu horizonte.
Por que ficar remoendo coisas tão pequenas?

A imagem do espelho não mostra, o que eu guardo no peito,
Tento colocar um pouco mais de alento nos meus dias de cão.
Enfim eu aprendi a amar tudo o que eu tenho feito,
Nem sempre é bom reclamar tanto por antecipação.
E quando que paramos para agradecer pelo nada?

Somos a ingratidão. Só sabemos amar na saudade.
Não lidamos bem com a escuridão, depreciamos tanto a maldade.
Mas isso faz parte de toda a balança.

Exatamente pela metade. Nem mais e nem menos.
Nem tão grande para ser perfeito, nem tão pouco para ser ilusório.
Pelas coisas que nós nunca agradecemos,
E que fazem parte de tudo aquilo que sempre é tão notório.
Eu não estou aqui por acaso. Eu estou?

Quando vai acabar este constante ciclo de fases?

By: Vinicius Osterer
Feito em 12 de Novembro de 2016.

15.11.16

Eu Parei

Se eu pudesse decidir quando escrevo,
Sobre o que eu escrevo,
Pararia em definitivo de sentir assim tanta coisa,
Coisa até que já não tem mais importância,
Coisa que se pudesse nem escreveria.
Eu com Bad em mais um dia.
Bad total que não sai da minha cabeça.

Quero ficar quieto.
Por que não quero escrever palavras repetidas e estúpidas.
Não mais sobre você.

By: Vinicius Osterer
Feito em 07 de Novembro de 2016.

7.11.16

Anjo Miguel, Mãe Miguelina

Honestamente, lá fora está tão escuro e chuvoso,
Desde o dia frio de Maio que você foi embora,
E aqui por dentro foi tão doloroso,
Ver você pegar a mão de Nossa Senhora,
Anjo Miguel que olha por mim,
Mãe Miguelina que guia meus passos.

Honestamente, aqui dentro está tudo tão mudado,
Acho que foram todas aquelas circunstâncias,
Minha mãe, lá fora está tão nublado,
Acho que me adaptei um pouco às mudanças.
Anjo Miguel que me protege,
Mãe Miguelina que me traz conforto.

Honestamente, seu filho acabou escrevendo,
Aquele sentimento bonito que ele tem no peito,
E lá fora está tão frio e chovendo,
E aqui dentro está difícil neste momento,
Anjo Miguel que me governa,
Mãe Miguelina que me consola,
Por que você foi embora?
Meu anjo da guarda amado.

By: Vinicius Osterer
Feito em 26 de outubro de 2016.

2.11.16

Um Dia de Eclipse

Boca em sangue, Mãe Terrena,
A sua imagem entra selvagem em cena.
Capítulo um da minha história,
Escrevendo sobre minha vida e memória.
Parágrafo, letra maiúscula,
Um coração aberto à criança minúscula,
Que ainda vive dentro do meu tórax,
Da minha caixa cheia de costelas de Adão e criação.

Coração peludo, estrela da manhã,
A sua imagem é selvagem e tão vã.
Capítulo dois da minha história,
Escrevendo para Nossa Senhora,
Com as estrelas e os protegidos,
Aos santos e aos bandidos,
Que ainda entrarão na minha vida,
Cheia de espaços vazios e em brancos.

Coloque o dinheiro que eu danço para você,
Eu faço milagres com as minhas mãos abençoadas,
Eu uso as velhas cantigas amaldiçoadas,
Em torno de uma fogueira contemporânea e moderna.
Boca em sangue, vulcão em erupção,
Com a minha costela que é a de Adão,
Um pedaço da Terra Prometida e o apocalipse,
O sol do verão em um dia de eclipse,
Entre as montanhas e o sacrifício de uma virgem,
Nossa Senhora e os protegidos que surgem,
Com paus e pedras e os homens selvagens,
Que quebraram os altares e todas as imagens,
Despedaçando aquilo tudo que eu sempre fui,
E o que restará dos meus ossos e história?
Um, dois, capítulo três da minha memória,
Em uma caixa de vidro para a exposição em público,
Barrabás!!

Cafarnaum, Jesus é um santo!
A sua imagem com Nossa Senhora em um manto.
Capítulo quatro da minha história,
Parágrafo e letra maiúscula de glória,
Você não precisa me quebrar desta forma orgânica,
Pôncio para à merda, sua mente satânica,
Eu só quero lutar pelos meus pedaços, seus selvagens!
Seus covardes e seres humanos estúpidos!

Boca em sangue, cuspindo fogo,
Como um dragão que habita na lua.
Estrela marinha, rainha do mar,
Que me aparece brilhante e nua.
Mãe Terrena, esses selvagens não sabem o que fazem,
Perdoe esses miseráveis de pouca fé!
Sacuda as suas entranhas e se livre desta praga!
Seu futuro é brilhante, o ser humano lhe amarga!
Você não é apenas massa e religião.
Parágrafo, letra maiúscula e travessão:
Capítulo cinco e ponto final,
Um dia de eclipse banal.

By: Vinicius Osterer
Feito em 23 de outubro de 2016.