18.6.17

Talvez

Entendo agora o sofrimento,
Existe dor aí dentro,
E isso lhe machuca por hora.
Limpe o rosto, por que você chora?
O seu sorriso é um urso de pelúcia.
Entendo o sofrimento agora,
Estou vivendo tanto por lá fora,
O que estou fazendo aqui dentro?
Em queda livre por um momento.
Sorrir acaba sendo minha denúncia:
“Lá vai o garoto com fogo nos olhos!”

Não é sobre precisar de um tempo,
É sobre recalcular toda a memória.
Existe dor sim aí dentro,
Limpe o rosto, por que você chora?
Entre a cruz do divino e a cruz do diabo.
As horas passam, os dias se vão,
Estou decidido, talvez não tenha razão.
Meu lugar não é aqui.
Meu lugar não é aqui.
Entre sentir e não se sentir amado.

Meu lugar não é aqui.
Talvez nem exista um lugar para mim.
Talvez queira parecer o que não sou.
Te amo?
Talvez não ame mais...
Mas te quero?
Talvez não queira mais...
Talvez, talvez... Queria mas não posso!
Porque querer é suicídio,
E passei por você os meus dramas.
Te amo?
Como eu não lhe quero,
Não lhe quero como não gosto de frutas secas,
Não lhe quero na mesma proporção daquele livro,
Aquele que nunca cheguei a ler o final do enredo.
Te quero? Nem mesmo em segredo.
Amar-te é heroína, me alucina
Como eu te quero? Não eu nem quero.
Você não pode ser o homem tal,
Sem mal, eu lhe amo?
Eu lhe quero como um amigo.
Me trate com jeito,
Porque posso ser todo seu.

Talvez deixe de amar homens. São brutos e insensatos.
Passe a amar mulheres com todos os seus sobressaltos,
Mulher é amor, homem não me provou o contrário.
O único homem que amou morreu em um calvário.
Ser bi? É enxergar com duas cores,
Vivenciar pelos amores,
Ser alguma coisa a mais do que indecisão.
Isso não é o meu caráter, é minha opção.
E eu sei exatamente o que eu quero.
Como eu te quero? Não eu nem quero.
Não lhe quero como não gosto do verão,
E das minhas crises de cólicas da madrugada.
Porque querer é suicídio,
E passei por você os meus dramas.
Tentei lhe esquecer em algumas camas,
Mas pensei: o que estou fazendo aqui dentro?
Em queda livre por um momento.
“Esse garoto não me é estranho!”

Não é sobre precisar de um tempo,
É sobre recalcular toda a memória.
Existe dor sim aqui dentro,
Limpe o rosto, por que você chora?
Porque eu estou vivo até que se prove o contrário,
A ciência ainda não descobriu,
Mas existem pessoas mortas andando por aí,
Vivendo tanto por lá fora...

Meu lugar não é aqui.
Ajoelhei e pedi perdão.
Três vezes por semana eu pensei nesta oração.
Supliquei e rezei
Uma oração minha,
Que eu mesmo inventei
Ela assim dizia:
“Meu senhor protegei
Todos os meus afetos e desafetos também”.
“Lá vai o garoto com fogo nos olhos!”

By: Vicenzo Vitchella
Feito em 21 de Abril, 15, 18, 19, 21 e 26 de maio de 2017.

17.6.17

Ao Futuro?

Me parece um equívoco dos grandes,
Ficar caçando artigos para escrever sobre modularidade,
Enquanto vejo que com a minha idade,
Eu poderia fazer algo mais concreto para o mundo.
Não escrevo para os militantes,
Aqueles que lutam por equidade e/ou liberdade,
Que querem florescer uma grande humanidade,
Enaltecendo a essência poética e humana.
Eu escrevo por minha conta em risco,
Não quero um artigo publicado e visto,
Quero dormir sem levar pesos para a cama.
E poder sonhar sem ser utópico,
Chorar sem ser dramático.
Eu não sou figurado, denso e ciclópico,
Nem didático, fanático, problemático,
Só não quero ser um borrão em vida,
Uma distorção ainda convalescida,
E não curada por completo.
Só não quero ser um equívoco dos grandes,
E acabar como um patético arquiteto.

By: Vicenzo Vitchella
Feito em 19 de maio de 2017.

6.6.17

Fome

Quando se tem fome, quando se quer comer
Do que vale o dinheiro, do que vale o poder?
Um bloco de concreto que parece um chocolate,
Chocolate com morango, com duas camadas.
Qual é a cara da fome?
Tem cara de civilização? Redonda como uma bola?
Com pedregulhos, enlameada, como uma poça de água?
Parece um filho de parto mal feito? Parece miséria?
Parece um litro vazio?
Um grito na noite?
Uma sombra negra que me causa arrepio?
Pastel de vento, vulcão supersônico?
Água benta, remédio para amarelão, tônico?
Tem cara de cultura? Esconde um mistério?
Está na Barra Funda? No Capão Redondo?
Na imemorial memória do que é latino?
No cinza concreto que se ergue como inço?
Ela tem algum critério?
Ahhhhh.... Minha barriga redonda grita
Em giros atmosféricos, tempestades de vontades
Dos sabores que nunca vou poder provar!
Tanto falei em amor, mas quem vai alimentar
A boca dos que passam fome no mundo?
Eu sou a fome? Eu sou humano.
E talvez essa seja a minha cara...
Fome. Não me ignore!
Eu existo.
Assim como esse bloco de concreto sobre meus pés,
Que parece chocolate com morango, com duas camadas.

By: Vicenzo Vitchella
Feito em 06 de Maio de 2017.

2.6.17

Um Anjo de Preto

TUM-DUM; TUM-DUM;
Eu havia prometido não usar magia negra.
Tocar um tambor, acender uma vela, espetar um alfinete.
Toda essa coisa que se vê na internet,
Toda essa prática escura e reclusa,
Talvez um espírito que vem e me usa,
TUM-DUM; TUM-DUM;
E talvez eu seja o sacrifício,
Ou talvez seja o que sacrifica,
Tentar fazer letras como um ofício,
Que vem até a boca e a adocica,
Amarga, azeda, faz reviravoltas em borboletas,
Silhuetas... Velas pretas...
Velhas histórias distópicas e desarmônicas,
Demoníacas... Camaleônicas...
TREVA. ESCURIDÃO.
TUM-DUM; TUM-DUM;
Foge da sua percepção!
Está sobre a cabeça do corpo,
E inserida no ponto chave do peito...
Eu gritei sete vezes e direito:
“VEM ATÉ MIM!”
Mas ele não veio... Ele não vem. Ele foi.
E se foi não vai voltar para jogar apenas dados,
Para apaziguar alguns pecados,
Ele não vem. Ele foi.
TUM-DUM; TUM-DUM;
Quem é você? Vem ridículo desta forma?
Cadê a beleza? Um anjo sem norma,
Sem rigor e sem caráter!
Não trouxe flores, nem mesmo chocolate,
Cadê a beleza?
Cadê o sorriso sincero?
Com terra do cemitério,
Um punhado de comprimidos e cabelo.
Magia negra e um grito de desespero.
Ele não vem. Ele foi.
E se foi não vai voltar e trazer cigarros,
Nem bebida, nem amor, nem palavras.
Cadê as trevas? Escuridão? E suas assas?
Talvez você já superou a cor preta.
Toda de luto, talvez é perfeita,
Para alguém que emergiu de um mundo inferior.
Pequeno de tamanho, de alento, quase sem cor.
Esperando pelas frutas e os diamantes,
Pelos corpos de seus melhores amantes,
Essas palhaçadas todas que habitam as pesquisas,
Do seu histórico do navegador da internet.
Se voltar me traga chicletes,
Porque parei de beber faz algum tempo.
Esse anjo de preto não vem.

By: Vicenzo Vitchella
Feito em 15 de Maio de 2017.

1.6.17

A Ressurreição do Sol

Poesia "Choveu"

A inspiração cinzenta que corre como uma lebre,
Em uma Paris de outro tempo tão alegre,
Tão alegre e tão cinzenta,
Tão férrea e com tormenta,
Abro o meu guarda-chuva, acendo meu cigarro,
Onde foi que estacionei o meu carro?
Seja como for vou a pé,
Caminhar pela Champs-Élysées,
Olhando de frente aquela roda gigante.

Eu acho que não sou o Cabaré,
E muito menos estou em Paris.
Estou na cinzenta cidade do meu coração,
Cheia de ruas e casas desabitadas,
Com monumentos erguidos aos amores que passaram,
E com pontes sobre todos os rios em que chovi.
Ainda bem que choveu,
Já estava cansado de chover sozinho.
Talvez também choveu em Paris.

Choveu na entrada do cinema,
Sobre a cabeça de todos os que saíam da sessão.
Choveu rios e trovoadas,
Sobre a minha cabeça e sobre meu coração.
Mas eu tinha um guarda-chuva, acendi meu cigarro,
Entrei correndo dentro do carro,
Cheguei em casa com a roupa meio molhada.
Comi a sopa e matei a charada:
O mundo dá voltas, relaxa!

Eu quero falar, sem tarjas, com meus trocados,
Minhas poucas moedas e dentes amarelados.
Se for para Londres e entrar em um trem,
Fugindo da polícia renascendo em Belém,
Como um Jesus Cristo do século vinte e um.
Qual é a cor? Cor de Big Bang nenhum,
Cor de uma chuva de raios de Warhol,
Pequeno Andy, você vê a lebre cinzenta?
Ela correu, ela correu e se enfiou em um buraco!

Se somos animais, por que não amamos desta forma?
Nos consideramos racionais,
Mas amamos por convenções ou normas...
Não preciso amar alguém para dar amor...
O amor está na vida como a cor está na flor...
Até mesmo o preto e branco é uma tonalidade.
Meu guarda-chuva de sobriedade,
Quem sabe estou lendo muitas histórias patéticas,
Com cores e animais falantes,
Xarope de groselha, xícaras cantantes,
Essa coisa toda ambientada no meu Cabaré.

Eu acho que não sou o Cabaré,
E muito menos estou em Paris.
Estou na cinzenta cidade do meu coração,
Com suas adversidades e meu humor de cão,
Ah o amor!
Por mais cor e amor por favor!
Onde foi que estacionei o meu carro?
Seja como for vou a pé,
Caminhar pela Champs-Élysées.

By: Vicenzo Vitchella

Feito em 31 de maio de 2017.